MIRANDA DO CORVO, MEU AMOR
MIRANDA DO CORVO, MEU AMOR
No último sábado (19.setembro.2026) tive oportunidade de integrar o convívio dos antigos alunos da escola primária de Miranda do Corvo, da antiga escola, agora transformada em biblioteca com o justo nome de Miguel Torga. Adolfo Rocha com o nome literário de Miguel Torga iniciou a sua carreira como médico no concelho de Miranda. É, pois, adequado, homenagear sempre que possível, este vulto da literatura pátria. Neste encontro recente abracei velhos companheiros e a terra que nos acolheu na doce infância, vila florida e atrativa.
Na meninice, os meus olhos vestiram-se com o verde e amarelo das acácias de uma mata, perto de minha casa. O verde destas plantas exóticas tinha uma intensidade proporcional à fulgência do seu amarelo florescente. Revivo as incontáveis vezes que atravessei essa mata, junto à estação da CP, plena de acácias a caminho da escola, cerca de meia-hora a pé. No início de cada ano a mata era um festim de um intenso e fulgente amarelo vivo que se estendia da estação ferroviária até à zona atual da Urbanização Quinta do Melo e do Polidesportivo. Bem recebidas, há cerca de um século, as acácias estão, agora, diabolizadas. Face à necessidade da expansão de construções para habitação e para outras infraestruturas, as acácias e a velha mata, em Miranda, deram lugar, e ainda bem, a um moderno complexo escolar e desportivo e a edifícios para habitação. De facto, as acácias, tidas por sagradas pelos hebreus e símbolo da pureza, da clareza e da segurança, dão belíssimas flores, mas são um problema sendo consideradas uma espécie invasora.
Senti regozijo em regressar às origens e evocar, por exemplo, as minhas tardes de domingo passadas no Café Dueça a ver a televisão, recentemente chegada ao país, com um copo de groselha à frente, uma espécie de pagamento para poder ver o que então era ainda uma novidade. Era um café onde circulavam jornais sendo o jornal República uma publicação lida com alguma discrição, pois era o jornal diário que fazia frente à ditadura, regime político daquele tempo. Ali fui conhecendo os irmãos Lopes e tive uma particular admiração pelo senhor Sebastião da Cruz Lopes. Com velhos companheiros recordei que fizemos, de joelhos dobrados, empolgantes simulações de jogos de futebol, sobre o cimento, com cápsulas de refrigerantes onde inseríamos as caras dos jogadores retiradas dos cromos de futebol que a senhora Leontina vendia até ao último cromo, o que nos garantia, nesse caso, a aquisição da desejada bola de cautchu. Com um giz desenhávamos o campo de futebol no chão, no cimento. A bola era um botão da roupa. As balizas pequenas caixas de papelão. Não havia internet, nem telemóveis, nem ipads, mas éramos felizes. Corríamos, fazíamos carros de rolamentos a descerem vertiginosamente do Montoiro e a passarem ao lado da Loja do Sr. Jaime Ramos antevisão dos atuais supermercados. E também corridas com arcos, e saltávamos à corda, jogávamos ao pião, tomávamos banho no Açude do Panão.
O meu contacto com o mundo exterior, para além dos jornais, da rádio e da televisão, e de alguns livros de banda desenhada, era a carrinha da Biblioteca Itinerante da Fundação Gulbenkian. Miranda evoluiu bastante e há marcas de continuação de um progresso e de um associativismo que se saúda. Perdido o comboio a servir o concelho, há agora o Metro Bus.
O nosso repasto
foi na Associação de Moradores dos Bujos, ao lado da Casa do Gaiato. Os
colaboradores desta coletividade foram exímios no apoio prestado e denotaram um
dinamismo imparável que é símbolo da Associação que integra o projeto Aldeias
Vivas e tem várias iniciativas com destaque para as caminhadas. Visitámos também
os estúdios da Rádio Dueça que transmite em 94.5 fm. O presidente do município,
José Miguel Ramos Ferreira, acompanhado da presidente da Assembleia Municipal,
Adília Farinha, recebeu os escolares no salão nobre onde antes homenageara o
premiado nadador paralímpico mirandense Diogo Cancela. Os edis ofereceram a
cada um de nós um Livro-CD do Grupo Recreativo Mirandense, intitulado
Encontros, um trabalho excelente no qual, para além da música, temos a história
deste Grupo há 95 anos a desenvolver atividades musicais como a Escola de
Música dirigida por Irina Camões e a sua Banda Filarmónica sob a direção de Rui
Lúcio. O livro fala-nos, dentre outros, do Rio Dueça, do Mosteiro de Semide, do
Gondramaz, das Aldeias de Xisto, da Casa Amarela. Um trabalho de cultura e
marketing com ilustrações de Filipa Nibau a merecer os parabéns.
SC
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