MARICARMEN E AS REDES SOCIAIS
MARICARMEN E AS REDES
As redes sociais trazem-nos muita
desinformação e manipulação, e recordando palavras de Umberto Eco em discurso
de 2015 na Universidade de Turim, estas (redes sociais) DERAM DIREITO À PALAVRA
DE UMA CAMBADA DE IMBECIS. Apesar desta constatação e deste e doutros alertas,
continuamos estupefactos perante aleivosias inseridas nas redes sem que surja
uma entidade fiscalizadora eficaz que possa mediar e por cobro aos desmandos
informativos, alguns quase letais. A impunidade campeia, a desfaçatez de vários
produtores de falsos ou deturpados conteúdos prossegue, a ofensa gratuita
vegeta, a vigarice nalguns casos preocupante chega a envolver cidadãos que se
sentem fraudulentamente utilizados. Contudo, de vez em quando as redes sociais
também ficam ao serviço de boas causas e, de facto, só ao serviço destas ou do
fenómeno informativo factual deviam existir.
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Na vizinha Espanha, o recente
fenómeno Maricarmen veio indignar milhares ou milhões de cidadãos, mas não só
em Espanha como em quase toda a Europa e muitos a utilizarem as redes sociais
reclamando a moralização. Maricarmen é uma cidadã de 87 anos com muitas
incapacidades que foi despejada do seu domicílio madrileno de quase sempre,
aliás, anteriormente habitado por seus pais. A anciã pagava uma renda de cerca de 500 euros
e, de súbito, o imóvel foi adquirido por um fundo imobiliário que lhe exigiu
uma renda cerca de três vezes superior ao que pagava. Esta novo valor da renda era incomportável
com a pensão de reforma desta idosa, cujo valor nem sequer iria chegar para
pagar a nova renda. A anciã foi despejada e deu entrada num hospital. Através
das redes sociais, catalisadoras e amplificadoras da indignação (aqui a parte
boa das redes), e também por relatos nos média tradicionais, a situação
MARICARMEN projetou-se em várias cidades e, ao que lemos, na capital espanhola
manifestantes acamparam na Puerta del Sol num vigoroso protesto conta a
especulação imobiliária. A situação habitacional em Espanha é grave tal como em
Portugal, faltam casas, os preços sobem especulativa e obscenamente e há casos
de idosos a serem enviados para as periferias ou para as moradias dos filhos na
impossibilidade de continuarem nos seus lares donde foram despejados e que
agora, muitas vezes, servem para Alojamento Local ou para outros fins, mas estará
subjacente um fenómeno especulativo. Cuidado. Não sou contra a atualização racional
e possível das rendas, mas sou contra a descaraterização dos tradicionais e
típicos bairros das nossas cidades e, pessoalmente, sou contra os despejos. As
rendas devem ser atualizadas dentro do aumento que ocorre do custo de vida, mas
não devia ser possível desalojar os arrendatários por lhes exigirem novos,
astronómicos e incomportáveis valores de renda.
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Vivemos situações horríveis como
a de contratos de arrendamento em Espanha a serem feitos dentro do novo lar
para evitar que este esteja ou venha a ser ocupado pelos chamados OKUPAS,
pessoas ou grupos que estão a viver numa habitação sem autorização do legal
proprietário. Há, pois, uma inversão de valores. Parece que se aproxima a lei
da selva. E no país vizinho, face ao caso Maricarmen, o governo teve de se
apressar a criar legislação para resolver este e outros problemas idênticos ou
na mesma esfera. Um aviso para Portugal?
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Seria de bom tom que o governo
português refletisse rápido e em pouco tempo com legislação para evitar que
haja, entre nós, casos Maricarmen. Ocupar ilegalmente um imóvel é crime, mas
não resolver o problema habitacional no país e não proteger de forma razoável
arrendatários é algo que pode ser amoral, desumano, e gerar grandes conflitos. Não
sei se entendi bem, mas presumo ter percebido que o governo português quer
despejos mais céleres? As rendas nunca foram tão caras entre nós, como
atualmente, e por isso receio que venha aí uma crise MARICARMENIANA adotada ao
nosso país. As rendas têm subido e se compreendemos que os proprietários falem
em desgaste das suas habitações e impostos, o lucro não pode estar acima de
tudo. São necessárias muitas mais habitações com financiamento, mais
cooperativas de habitação, mais construção e travar urgentemente situações
desumanas nesta área tão importante num país onde se canta pão, paz, habitação.
E este cantar está afinado ou desafinado? Numa cidade de estudantes, como
Coimbra, é preciso também estar alerta em relação a preços considerados
elevados que venham a ser praticados pela renda dos quartos.
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Quanto às redes sociais, pedem-se
conteúdos verdadeiros, úteis, e adaptados aos objetivos. Mais regulação e leis
apertadas e, por favor, não esperem pelo caos total e absoluto na habitação e
nas redes sociais. Cuidado. Muito cuidado.
SC no jornal O DESPERTAR a 2 outubro de 2026
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