TEMA DE CONVERSA NO CASINO FIGUEIRA LIVRO "CAJADO DE ZAMBUJEIRO OLIVEIRA BRAVA" DO ENFERMEIRO GUARDADO CARVALHO

 TEMA DE CONVERSA  NO CASINO FIGUEIRA


LIVRO "CAJADO DE ZAMBUJEIRO OLIVEIRA BRAVA" 

DO ENFERMEIRO GUARDADO CARVALHO 



Fiquei seduzido pela leitura das primeiras páginas do livro parcialmente autobiográfico, do enfermeiro, licenciado e mestre com uma pós-graduação, Dr. José António Guardado Carvalho. Veio também convidar-me para moderar a apresentação desta sua obra o que previa fazer com todo o prazer. Porém, dois dias antes da sessão, (a 27 de junho de 2026, no Casino Figueira), ao telefonar ao senhor enfermeiro Guardado fiquei a saber que não seria MODERAR A SESSÃO como previsto, mas era desafiado a emitir um alinhavo sobre este livro intitulado CAJADO DE ZAMBUJEIRO, OLIVEIRA BRAVA. O livro já tinha sido apresentado na Ordem dos Enfermeiros e, na Figueira, na Biblioteca Municipal, pela Drª SANDRINE. Não seria, pois, correto eu ousar uma  eventual crítica literária que, aliás, não estaria ao meu alcance, depois do relatado brilhantismo da apresentação na Biblioteca Municipal.

Assim, foi quase uma reprodução do índice o que fiz e, no final, conversei com o autor. Fazia sentido conhecer o AUTOR DE VIVA VOZ. Utilizei O BISTURI DA MINUCIOSA PERGUNTA. Foi uma conversa agradável acerca de um homem, grande humanista, reconhecido profissional de saúde e de serviço ao Outro.

Quanto ao livro leva-nos a factos de vida e também a pessoas e episódios, alguns nossos conhecidos, em proximidade pessoal, local e regional. E, obviamente, temos autorretratos do autor. A fase da infância surpreendeu-me em crua e pungente realidade. Não sabia que a mãe, cito: “estava a chamar-me para uma vida de tarefas antes da idade, de dores antes do entendimento. Cresci a lavar chão, a virar a terra, a cozinhar com mãos pequenas e fome de carinho. Fui vítima de violência doméstica num tempo em que isso não tinha nome. Era apenas educação” (…) e doeu durante décadas, até que a palavra memória se transformasse em libertação”.

O autor passa, entre vários cenários, pela Escola de Enfermagem Ângelo da Fonseca, pelos antigos Hospitais da Universidade de Coimbra, pelo 25 de Abril, pelo União de Coimbra onde foi enfermeiro do clube e também no basquete da Académica, pela emigração, pela sua vida humanitária. Não ficaremos por aqui. Teremos de folhear cerca de 560 páginas para nos inteirarmos por inteiro de uma vida inteira e completa do autor, não apenas um profissional de saúde, mas um cidadão muito ativo, plantado, como já referi,  num humanismo que vai escasseando pelo globo, ou seja, humanismo que escasseia neste mundo tantas vezes regado pelo egoísmo; cidadão com vontade indómita de servir, que subscreve o seu percurso de vida entre a emigração e a causa humanitária neste livro CAJADO DE ZAMBUJEIRO. Há uma ampla e minuciosa ritualística MEMORIOSA. Memórias individuais e coletivas e, assim, e obviamente, muita VOZ DO PRETÉRITO. Já o sabíamos presidente da ONG Mão na Mão. Confesso que não conhecia esta sua vertente de narrador ativo na sequência das suas peregrinações.

Numa linguagem enxuta, sem rodriguinhos de literariedade, mas num registo preferencialmente  factual e com meditações muito a propósito, reflexos de experiência de vida que dá uma nova substância à obra,  JOSÉ ANTÓNIO GUARDADO CARVALHO traz nesta narrativa a força dos homens que se moldam a si próprios, como ele fez, desnuda-se por completo, mostra a alma reluzente de sinceridade e um corpo nem sempre correspondido no amor, nas relações pessoais e profissionais e mesmo, pontualmente, condoído nas relações humanas. História de vida sem grandiosas epopeias, mas com grandes inquietudes, com pequenos, ou talvez, grandes gestos de coragem quotidiana, assim o diz a propósito da sua primeira experiência matrimonial ainda jovem com a Pé de Candeeiro, o que aconteceu em tempos iniciais na profissão que também o foram no desporto, em andebol, no pavilhão da Palmeira. O casal deixou Coimbra, “laboratório de sabedoria” – escreve Guardado - e rumou a Santa Comba Dão. Expetativas frustradas no Hospital santacombadense e segue-se a Suiça, país onde trabalhará mais do que uma vez. Não esteve muito tempo em Friburgo e regressou com a “insinuante” italiana Maria como bela imagem mental… para recordar. De novo por cá evoca a implantação do SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE. Depois, em 1983, aposta na vida empresarial.

Há objetividade nestes relatos que permitem ao leitor uma espécie de visualização de fotos simbólicas destes momentos de vida. Uma VISÃO DIACRÓNICA DA VIDA DO ENFERMEIRO GUARDADO. Tal e qual: Temos uma narrativa em PRIMEIRA PESSOA e com veracidade.

Claro que admitimos que tudo aqui é verdade. No entanto, todos sabemos que o montemorense Fernão Mendes Pinto, autor da famosa PEREGRINAÇÃO, relatou de forma fabulosa alguns episódios que não terá vivido, mas dos quais lhe deram conta e isto numa época, ou seja, século XVI em que a literatura pedia uma certa efabulação e fantasia para captar leitores. Nas últimas décadas, porém,   o escritor francês Serge Doubrovsky criou a designação de AUTOFICÇÃO um género literário que mistura AUTROBIOGRAFIA E FICÇÃO.É uma aventura da linguagem, uma liberdade criativa e em vez de um compromisso com a verdade  em que os acontecimentos são remodelados ou até podem ser criados/ficcionados. Em séries televisivas acontece, por exemplo, na série The Crown dedicada à última rainha de Inglaterra momentos de autoficção.

Julgo que o nosso Amigo e Autor, neste seu livro, relatou sempre a verdade em várias paragens como em Genebra no Hospital Cantonal ou quando foi como Mendes Pinto para paragens do Oriente efetuando as suas primeiras PREREGRINAÇÕES. É um viajante atento e faz-nos descrições maravilhosas que irão ler. Vai ao Tibete envolve-se em “atmosfera espiritual intensa” Há o encontro com um hospital da alma e trouxe consigo a espiritualidade reforçada. Regressa a Genebra e aventura-se, posteriormente, em MISSÕES HUMANITÁRIAS. As epidemias, o deserto, a sede. Leiam com atenção.

E depois a outra peregrinação (as peregrinações, pois foram três e espirituais) a Santiago de Compostela. Vai pelo Caminho Português do Interior – enfermeiro peregrino – “a estrada foi longa, mas o coração conhecia o caminho” – revela o Autor. E o seu cajado vai agora pertencer ao Caminho Universal. Três Caminhos e a conclusão de que “a Santiago não chegam apenas os pés cansados, mas sobretudo os corações transformados”.

O cajado é símbolo de liderança, autoridade, cuidado pastoral. O Autor venceu obstáculos. Refletiu num forte ecumenismo em vários ambientes religiosos. O mesmo na vida pessoal, familiar e profissional. Encostado a um cajado de zambujeiro, ou seja, cajado de oliveira brava, árvore que na Bíblia surge como poderosa metáfora espiritual.

Homem do Bem. Autor que será interessante ler: GUARDADO CARVALHO. Parabéns pelo seu livro. Um abraço e felicidades.

Sansão Coelho

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A-CA-DÉ-MI-CA! BRI-O-SA!

ACADÉMICA/OAF, SIM OU SOPAS ?

EM COIMBRA, E A OURO, HOMENAGEM A FERNANDO ROLIM