PENEDO DA SAUDADE, um hino à vida académica de Coimbra
PENEDO DA SAUDADE
Estacionei, o que não é fácil na zona. Olhei João de Deus na
sua estátua imponente e justa. Prestigiado poeta lírico. Ensinou a ler com a
sua Cartilha Maternal. Um sucesso. A sua vida boémia também faz parte do seu
currículo. Estamos no PENEDO DA SAUDADE. Visitar e revisitar este espaço de
Coimbra é ganhar COIMBRISMO. E muita poesia, além de saudade. O Penedo, nos
seus trilhos acolhedores, é um hino à vida académica de Coimbra. À vida do
passado; e ali se registam em pedra textos que comemoram cursos, efemérides de
reuniões académicas: é uma Coimbra estudantil gravada na pedra. Há cascatas,
pequenos lagos, bela vegetação. Nalgumas lápides não é só a antiguidade que
inibe uma leitura total; há uma relativa falta de limpeza de que quase só se
libertam as mais recentes. Os degraus, os trilhos, as lajes, merecem uma
atenção urgente do município. Vamos pisando o chão atapetado por azeitonas que
o vento faz caírem das oliveiras, árvores sacralizadas, símbolos de SABEDORIA,
PAZ, ESPERANÇA, FERTILIDADE, RENOVAÇÃO. A cidade de Atenas ganhou este nome num
gesto de gratidão à Atena que ofereceu aos seus cidadãos uma oliveira. Cruzo-me
com dois turistas de máquina em punho. Este é um dos miradouros mais bonitos da
Cidade. Um estudante, provavelmente, já a folhear as sebentas. Uma idosa
recolhida numa sombra a escutar música africana com o som a ser debitado pelo
telemóvel. Olho a cidade no Calhabé ou um Calhabé quase cidade. A vista
alarga-se pelo horizonte. Como tem crescido Coimbra para este lado que a vista
alcança até à autoestrada A13, até mais do que Santa Clara. Prossigo. Tenho que
ter cuidado para não cair pois há degraus que não apresentam a melhor confiança.
Respiro o ar. Solta-se o pensamento embalado na poética de algumas lajes e eu penso
na Balada de Coimbra de José Régio:
Eternidade e saudade dão as
mãos neste espaço no qual D. Pedro terá chorado a perda da sua amada Inês. Real
ou imaginário, lenda ou história, abraçam-se bem no Penedo. Percorro o RETIRO
DOS POETAS e a SALA DOS CURSOS que acolhem as mais variadas mensagens da vida
académica, quase sempre a caminho da perenidade. Uma homenagem a Luís Góis e
pressinto a sua voz a entoar Homem Só, Meu Irmão; e eis que numa estrutura
materializada em metal vejo a réplica da Torre da Universidade, uma pasta universitária,
a serrania da Lousã ao fundo e inscrito na pasta, com fita vermelha a adorná-la,
leio uma passagem da Balada de Despedida do 5º ano jurídico de 1989
Imagino a voz de Rui Lucas com
a sua equipa da Toada Coimbrã cantando:
“E levas em ti guardada
O choro de uma balada
Recordações do passado
O bater da velha Cabra”
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