POR QUE CHORAM NA SERENATA MONUMENTAL?
POR QUE CHORAM
NA SERENATA MONUMENTAL?
De vez em quando gosto de despir
ideias feitas, de afastar as emoções. REFLETIR. Vejamos: há cerca de 20 anos,
ou talvez mais, reportei em direto para a RTP uma Serenata Monumental, a tal
que abre a festa maior da que já foi a maior Academia portuguesa: a Queima das
Fitas da Universidade de Coimbra. Fiquei perplexo, então, ao ver várias
estudantes, estou a falar do sexo feminino, que choravam, algumas até de forma
abundante, durante e depois da Serenata. Procurei questioná-las, mas no meio da
multidão académica com o habitual frenesim não dá para falar serenamente nem
para escutar com detalhe. Houve, contudo, duas ideias-chave que consegui registar:
iam deixar Coimbra e as belas sociabilidades académicas; e estavam RECEOSAS PERANTE
O FUTURO. Após esta Serenata de 2025 ouvi e li comentários mesclados por uma
certa angústia e, provavelmente, também pelo choro, que contradizem este
ambiente que deve ser festivo. Ou seja: algumas décadas depois, constato que continuam
a ser vertidas lágrimas na Serenata Monumental. Admito que sejam lágrimas de
nostalgia, mas muitas lágrimas devem ser de INQUIETUDE, muito mais do que reflexo
de um adeus a Coimbra. A ambiência emotiva e de grande sentimentalidade do fado
e canção de Coimbra é convidativa à nostalgia, mas, caros leitores, há
estudantes finalistas que receiam os tempos que se aproximam pós-curso, talvez
mais elas do que eles, pois as mulheres são habitualmente mais realistas. NO
CORTEJO DA QUEIMA deste ano, aberto pelos ANTIGOS ESTUDANTES, não se
vislumbravam muitos cabelos brancos, mas a maioria indiciava ter terminado os
seus cursos há vinte, trinta ou mais anos e terão conseguido uma vida
profissional de êxito ou suficiente parar lhes assegurar o dia-a-dia. Vi-os felizes, mas pergunto: daqui a vinte ou
trinta anos os finalistas deste 2025 vão mostrar idêntica alegria tendo obtido
também êxitos profissionais? Estudos
sociológicos, seguramente já realizados em dissertações de mestrado ou teses de
doutoramento, podem responder cientificamente dando-nos a conhecer, de forma
objetiva e factual, a resposta ao que equaciono. Numa visão macroscópica,
ousada, apercebemo-nos do quão difícil está a empregabilidade para vários
cursos superiores e há finalistas que falam da saída para o estrangeiro como
solução; e há outros, contristados, a dizerem que lhes oferecem apenas os tais
mil euros por mês. A VIDA PARECE ESTAR DIFÍCIL PARA OS FINALISTAS DE CURSOS
SUPERIORES, pelo menos para algumas áreas. Até aos anos 70 e 80 eram disputados
e desejados e agora como é? Nunca
tivemos uma geração tão bem preparada academicamente como a atual, mas continuo
a pergunto: POR QUE CHORAM NA SERENATA MONUMENTAL?
***
E depois da SERENATA o CORTEJO DA
QUEIMA. Aqui, como sempre, alegria esfuziante. Cerveja a rodos. Banhos de
cerveja como moda dos últimos anos. A presença de público, a começar pelos
familiares sempre orgulhosos dos seus doutores, não se coaduna com o esguichar
da cerveja para cima de quem assiste. Este ano, pelo que vi nos primeiros
carros, alguns dos que iam a bordo levavam pistolas de plástico próprias de
festejos carnavalescos e apontavam para colegas, e às vezes com projeção para a
assistência, esguichos de cerveja. Enormes desperdícios daquela bebida que na
cara e no cabelo deixa um ambiente pastoso e o chão escorregadio. Nem tudo é
giro, mas gostam, temos de aceitar. Houve muita Malta na QUEIMA e uma centena
de carros alegóricos – é obra! Uma palavra de parabéns para a presença na SERENATA
MONUMENTAL de dois Grupos de Fados da Secção de Fado da Associação Académica
com vários TEMAS INÉDITOS. Excelente. F.R.A!
SC
Inserido no jornal O Despertar de 30 maio de 2025
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