CONVENTO DOS ANJOS EM MONTEMOR-O-VELHO: NOVO MUSEU E ANTIGOS MORCEGOS
CONVENTO DOS ANJOS EM MONTEMOR
O NOVO MUSEU E OS ANTIGOS MORCEGOS
Estamos perante uma aplaudida
iniciativa: a criação do MUSEU MUNICIPAL de MONTEMOR-O-VELHO. Está instalado no
CONVENTO DOS ANJOS que é um monumento nacional e nem sempre recebeu a devida
atenção. Agora, finalmente, temos este edifício do século XV, várias vezes
restaurado, como polo de memória. Um exercício memorioso atravessa este
monumento à volta do montemorense FERNÃO MENDES PINTO que nasceu em 1509 e terá
deixado o seu torrão natal, devido à pobreza, por volta dos 10 anos, rumando à
capital, daí para Setúbal e depois zarpou em direção ao Oriente. Obviamente que
tem lugar de destaque a sua obra escrita, PEREGRINAÇÃO, bem como os DESCOBRIMENTOS
PORTUGUESES. No exterior do Convento dos Anjos, do lado oposto à estrada
nacional 111, está um belíssimo grupo escultórico que também evoca FERNÃO
MENDES PINTO e a sua odisseia. Montemor-o-Velho presta, assim, justa homenagem
a um dos seus mais destacados filhos e será tempo de reequacionarmos essa
maldita frase feita FERNÃO, MENTES? MINTO. Na realidade, sendo impossível ter
vivido tanto quanto narrou, bem como a maioria dos factos que enuncia, Fernão
Mendes Pinto escreve NO SEU TEMPO e COM A MODA DO SEU TEMPO. Relata alguns
factos que lhe contaram como se os tivesse vivido e outros talvez os tenha
sobredimensionado, pois o exótico, o não-visto e o não-experenciado seriam
moda. É por isso que no entender de
vários teóricos da literatura, Fernão Mendes Pinto é o primeiro grande
jornalista de viagens. Remeto os leitores para a série da Netflix dedicada à
anterior rainha de Inglaterra, Elizabeth II. Há aí uma dramatização biográfica
dando conta da vida da rainha em vários aspetos. E, se alguns, são reflexo da
realidade, há outros que trazendo atratividade são, contudo, mera ficção,
entroncando, aliás, numa corrente, ou melhor, num conceito lançado nos anos 70
pelo escritor e teórico francês SERGE DOUBROVSKY denominado AUTOFICÇÃO, ou
seja, uma mistura de autobiografia e ficção. Explora-se uma linha entre a
realidade e o imaginário. Mais de cinco séculos depois FERNÃO MENDES PINTO está
cada vez mais atual e o género autoficção está a transformar-se em tendência na
literatura e também no cinema tal como dei como exemplo, a série The Crown da
Netflix.
E, a propósito, evocamos o "Ti" HENRIQUE MILHEIRO
Um protagonista inesquecível da
vida de Montemor-o-Velho, atravessando o século passado até 1970, foi HENRIQUE
MILHEIRO então com 96 anos. Andava de bicicleta, dizem ter sido o funcionário com
mais anos de Estado pois teve uma autorização que lhe permitiu trabalhar quase
até à morte e esteve sempre ligado à Filarmónica 25 de setembro. Tocava
clarinete e violino. Devido a um acidente de mota perdeu um dedo e dizia
inconsolável PERDI o MEU MI e deixou o clarinete. Atuou algumas vezes no
Convento dos Anjos a tocar violino. O Convento, agora belo museu, era naquela
época um centro de morcegos; e era ver o Senhor Henrique Milheiro, o TI
MILHEIRO como a população carinhosamente o tratava, a deixar as cordas do
violino e a fazer do arco do instrumento uma arma para ceifar os morcegos. Em
vez do espetáculo da música havia, encaixado, o espetáculo da luta contra os
morcegos. Outros tempos. Histórias nunca faltam.
SC - Jornal O Despertar a 16 maio de 2025
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