A MORTE DO PAPA e o 25 DE ABRIL - ESPERANÇA
A MORTE DO PAPA e o 25 DE ABRIL
ESPERANÇA
O início desta semana ficou marcado pela morte do Papa Francisco, defensor dos pobres e dos marginalizados. Lutou contra desigualdades, enfrentou a pedofilia na Igreja. Podemos escrever, quando estamos a comemorar a Revolução do 25 de abril, que Francisco, pela lupa portuguesa, foi um PAPA DE ABRIL.
Já agora: recordo-me de ter saído dos estúdios do Serviço Internacional da Emissora Nacional no dia 16 de março de 1974 pelas 8 da manhã. Era em São Marçal, em Lisboa. Ali se tinha falado, durante a madrugada, na situação do país. Já há algum tempo que alguns dos locutores melhor documentados faziam comentários referentes à instável situação política interna e externa. O livro O Portugal e o Futuro de António de Spínola circulava pelos estúdios. No serviço Internacional, feito por fases horárias e em diversas línguas, a noite e madrugada foram perfeitamente normais na programação e, ao que sei, o mesmo aconteceu nos estúdios da Rua do Quelhas donde saiam as emissões dos programas 1 e 2 continentais. Rumei a Coimbra porque tinha o batizado e o aniversário, no fim de semana, da minha filha. Ao chegar à portagem da autoestrada, em Vila Franca, apercebo-me do movimento de uma coluna militar. Soube depois que era das Caldas: estava a fazer a inversão de marcha o que também era dificultado por um ou dois autocarros com adeptos de um clube desportivo, penso que eram do FCPorto. Vim a saber, ainda nesse dia, que o levantamento militar proveniente das Caldas, e que não conseguiu entrar em Lisboa, implicou a aplicação de castigos a alguns militares que o integraram.
Dias depois fui colocado no Emissor Regional de Coimbra e na manhã de 25 de abril desse ano telefonam-me dos estúdios a dar conta de ter havido uma revolução em Lisboa. A voz dos comunicados da Emissora era do Eduardo Fidalgo que me merecia confiança. A cidade de Coimbra estava calma, aliás, despertou um pouco tarde para o 25 de abril. Recordo-me de o então Governador Civil ter feito chegar aos estúdios um comunicado de apoio a uma manifestação em Lisboa ao Presidente do Conselho de Ministros. A emissão regional das 12 horas, nesse dia, ainda foi para o ar; posteriormente, ficámos sempre pendurados na emissão de Lisboa. E projetei a ESPERANÇA em tempos melhores para Coimbra e para o país. Não fui colhido de surpresa. Estavam equacionados alguns indícios em relação a um golpe de estado que já se prenunciava, pois, certos militares não estavam parados.
Coimbra em 74 já não tinha muita vocação para reivindicações político-militares. Lisboa foi o centro da Revolução. O 25 de abril fez com que o nosso país, cheio de miséria e com cerca de 30% de analfabetos, com poucos estudantes privilegiados a seguirem o ensino superior, tivesse feito algumas conquistas nos anos sequentes. Porém, observo que Coimbra perdeu protagonismo e protagonistas políticos. A Universidade, que foi quase única, vê hoje escolas superiores instaladas por todo o país. Coimbra está ensanduichada entre Porto e Lisboa e não consegue reivindicar ser área metropolitana ou ter uma autoestrada de ligação a Viseu ou uma ligação em autoestrada pela margem esquerda até à Figueira da Foz porque o Paul de Arzila a terá bloqueado, há anos. Não veio um metro sobre carris; a estação da C.P. (estação velha) é exemplo de subdesenvolvimento. A Baixa, embora a procurem maquilhar com iniciativas, é quase um deserto. A cidade é linda e ainda deslumbra, mas vive da monumentalidade do passado com um ou outro retoque contemporâneo. E vive de investimentos na habitação, mas há casas fechadas e a habitação está sobrevalorizada e há enorme dificuldade para aqui viver. Era fértil na indústria (!) das fotocópias e do arrendamento de quartos, mas as fotocópias já não são o que eram. Safam-se os funcionários públicos mais subidos na carreira, os profissionais da saúde, especialmente a classe médica e os técnicos superiores, os profissionais liberais, a classe docente e pouco mais. Nesta cidade de estudantes até as capas e batinas quase só aparecem em tempo de festa em exibicionismo que contrasta com o sentido de democraticidade que o traje académico representa. Apesar de alguma boa vontade de autarcas, ao longo das décadas, a cidade tem perdido protagonismo. Até o futebol da Académica desceu da primeira liga para a liga 3, talvez como a cidade.
Admito poder estar a
realizar um exercício de inquietude, mas esperava mais quando a rádio foi a voz
da revolução em abril de 74. Mas tenho ESPERANÇA, como nos ensinou o Papa
Francisco, que a descreveu como âncora que nos mantém firmes mesmo em tempos
difíceis.
SC
Texto inserido no jornal O Despertar a 25 abril 2025
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