ENVELHECER É BOM OU MAU?
ENVELHECER
É BOM OU MAU?
Foi no metro em
Lisboa que uma jovem se levantou e cedeu-me o seu lugar. Foi a terceira vez em
que fui obsequiado com este gesto perante o meu cabelo a branquear e o físico,
ao que penso, a indiciar uma idade de avô ou bisavô. Reconheço e agradeço as
cortesias. Quando a sociedade respeita os longevos temos de nos regozijar. Tal
situação leva-me, no entanto, a refletir na idade que tenho embora gostasse de
não parecer e não ser idoso. Há muito trabalho em prol da tentativa de
permanecer por cá mais algum tempo. Escrevo, faço caminhadas, estou à frente de
uma associação que me faz mexer-me e muito. Também frequento aulas de danças do
mundo que me levam a transpirar. Passeio o que posso e dou alguma preferência
ao comboio e ao autocarro em vez de conduzir o meu carro. Não é difícil
envelhecer em Portugal se a saúde ajudar. Há diversas instituições que apoiam
os idosos, por exemplo as Misericórdias, o estado e os privados. Há
universidades seniores a proporcionarem conhecimentos multidisciplinares e
estas têm aumentado de norte a sul. Temos, inclusivamente, um canal de
televisão a RTP Memória que evita a desmemória, a nossa e a da nação. Temos,
igualmente, canais de rádio emitindo Nostalgia e a rememorar o que é um belo
exercício. Apesar deste simpático enquadramento quando penso no meu
envelhecimento fico triste pois sabendo que comecei a envelhecer no momento em
que nasci também observo, fria e tristemente, que um eventual projeto de futuro
que eu equacione já não pode ter muito tempo, provavelmente apenas dias ou
meses e quanto a anos, claro que gostava, mas não sei se é viável. E isto é ser
realista. É sinal de que tenho vivido de forma razoável dentro da minha
normalidade-objetivo. Quero segredar-lhes como prova do gostar de andar por cá que
o meu ritual passa ainda pela leitura imediata do Obituário no jornal diário
sendo também informado, aleatoriamente, pelo Facebook de pessoas amigas e
outras que admiramos que nos vão deixando. E continuo a desnudar-me ao
dizer-vos que também atento, quase em rigorosa análise matemática, nas idades
dos que partem para saber se estou acima ou abaixo das médias das idades dos
que vejo e leio que partem.
***
“Li-te no
Despertar, estás ótimo agora que te vejo pessoalmente” “E tu também não mudaste
nada, sortudo!!!” “Família?” “É pá já tenho um neto que mais dia menos dia me
vai dar um bisneto” “Em grande, mantém-te assim”. “Há aí muita gente a passar
os cem”, “Pois é verdade”.
Despedimo-nos e o
meu amigo pelo andar vai mostrando fragilidades que são um reflexo efetivo da
idade. As estatísticas ainda são um
consolo e, afinal, dizem, é bom envelhecer em Portugal. Hoje o envelhecimento
não é visto como um peso social, mas há aspetos cronológicos, biológicos, psicológicos e
sociais que enquadram o envelhecimento.
***
“Gostei de te ver”, “O que é que tem bom parecer?”, “Esquece,
lê isto aqui”, “Espera deixa-me por os óculos de ver ao perto e sabes que ao
longe também não vejo bem”.
Envelhecer em Portugal não é assim tão mau…hoje até
temos descontos nos transportes públicos, porém, não sei se é bom envelhecer. O
que me diz, caro leitor: envelhecer é bom ou mau?
SC no jornal O
Despertar, de Coimbra a 15 novembro 2024
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