ADEUS, ATÉ AO MEU REGRESSO

 

"ADEUS, ATÉ AO MEU REGRESSO"


Os cinco minutos de fama

A força da rádio

A rádio ao serviço dos militares nas antigas colónias

O programa militar A HORA DO SOLDADO


Estas vaidades que se vão vendo e ouvindo e também lendo. Nas revistas cor-de-rosa vão exibindo as suas silhuetas, os últimos animais adotados, os lugares paradisíacos onde passam férias e postam nas redes sociais a tez bronzeada, os centímetros que desapareceram devido às últimas dietas da moda. O fitness. Os flirtes. Os namoros que impactam. A alvura de uma dentição tratada de forma sublime a contrastar com os dentes podres de muitos que não convivem com a saúde oral porque não se encontra facilmente e a bom preço. O uso e abuso do linguajar afetado por expressões ocas como incrível, fabuloso. Os pés atapetados pelos ténis de eleição porque o sapato convencional passou de moda. O salto alto, finíssimo, pontiagudo e que lhe dá uma altivez de manequim altamente produzido. As imagens de uma verdade duvidosa. As notícias que às vezes são falsas, ou melhor, as mentiras que nos vendem às vezes como se fossem notícias. Plataformas e outras formas. E há tantas máquinas produtoras e reprodutoras de notícias. E há sondagens para todos os gostos. E há aqueles minutos de fama. Os cinco ou dez minutos de fama dentro de uma casa fechada e filmada, de um talk-show e da intensa luminosidade que enegrece em pouco tempo. Como é bom viver em Portugal! Neste país onde é urgente acabar com assimetrias e em que há um punhado de lustrados ilustres a ganharem, no total, quase tanto como o resto da população. É bom viver aqui, pois é, mas seria melhor se houvesse REGIONALIZAÇÃO, se o interior não ficasse TÃO LONGE da beira-mar, se houvesse em Coimbra mais habitação a preços sustentáveis evitando especulações, se houvesse mais crianças e mais apoio à natalidade, mas um apoio gigante como foi o gigantismo de um país que se fez ao mar, às Descobertas, e que foi um país imperial e colonizador até cair de podre porque o que é falso cai de verdade e a verdade vem ao de cima como o azeite.

A 4 de fevereiro de 1961 teve início, pelo menos na ótica de um dos movimentos independentistas, a luta armada em Angola contra o domínio português. Um grupo de angolanos atacou o Presídio militar em Luanda, uma Esquadra da Polícia, a sede dos Correios e a rádio - a Emissora Oficial de Angola. Completaram-se 61 anos. Para aquele território foram mobilizados milhares de jovens portugueses já que a ordem de Salazar foi para Angola e em força fazendo crer Angola é Nossa. Contudo, sem força de razão porque a independência das colónias estava a ser algo aceite por todas as potências europeias colonizadoras. Nós, o regime, mais uma vez demorou a compreender. Milhares de jovens estiveram, forçados, de armas na mão nas antigas províncias ultramarinas. Calçavam botas grossas, vestiam camuflados verde escuro, empunhavam a G3 ou eventualmente uma pistola Walter. Emagreciam quantas vezes?! quando só havia ração de combate como alimento. Nalgumas Companhias e Batalhões, de um balde furado acionado por uma espécie de mola-corda e pendurado a cerca de dois metros acima do solo caiam gotas de água, as suficientes para limpar o pó amarelado que se soltava dos trilhos entre o capim da mata e que maquilhava a cara dos soldados que não conheciam revistas cor-de-rosa. As notícias chegavam pela HORA DO SOLDADO da rádio oficial em Angola, nos aerogramas amarelados; e outras vezes não chegavam o que era bem pior porque há saudade que mata ainda mais do que a guerra e na guerra. Estes jovens de 60/70 também tiveram os seus poucochinhos segundos de fama. Perfilados, fila indiana, boca e face quase a tocarem o microfone dos fotocines com o bivaque, a boina ou o boné, caras enrugadas, às vezes com uma aura de cacimbo a humedecer as palavras apressadas para TEREM À VOLTA DE SEIS OU SETE SEGUNDOS DE FAMA a preto e branco: 

“Para os meus pais, tios, irmã, para a minha esposa e filhos, para a minha noiva ou madrinha de guerra fala o soldado número x, eu estou bem e desejo lhes um bom natal e próspero ano novo” 

– e muitos não terminavam a mensagem porque se enganavam ou esqueciam o nome ou outra referência adequada…e logo outro camarada se sobrepunha a esconder as lágrimas, a fazer da fraqueza a sua força anunciadora de ADEUS, ATÉ AO MEU REGRESSO. Primeiro foram mensagens pela rádio e depois também pela televisão. Aqueles brevíssimos segundos de fama…tanta diferença em cinquenta/sessenta anos!

Há, contudo, uma quase matriz e que é o comunicar e a comunicação social ou grupal. A velhinha RÁDIO teve repercussão nesta onda de afetos mensageiros para preencher a escassez da familiaridade e da sociabilidade neutralizadas pela guerra colonial. Em Coimbra, o Professor Doutor MÁRIO SILVA, eminente físico, foi o impulsionador da rádio (radiodifusão) em Portugal e lançou a Emissora Universitária (1933). Foi afastado pelo regime da docência universitária e da vida pública e só foi reintegrado pós-revolução de abril. Não é a primeira vez que ouso lançar uma sugestão que me parece tão simples quanto isto: UM BUSTO DO PROFESSOR MÁRIO SILVA na Rotunda que se encontra quase em frente aos atuais estúdios da RTP em Coimbra. Quem por ali venha a passar e a olhar o busto sugerido daria uns segundos ou uns minutos de fama a quem a merece com perenidade, longe de vaidades, de futilidades, de vãs glórias, do efémero e do plastificado. 

 É preciso evitar a DESMEMÓRIA.

“Adeus, até ao meu regresso”.

Sansão Coelho


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